Precisamos falar sobre Mafia de Cuba

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publicado em 05.07.2016 por Gabriel Caropreso

Vez por outra, é necessário fazer justiça a um jogo que acaba não recebendo a atenção devida. Em um mercado alvejado por volumes massivos de miniaturas, caixas pesadas, manuais de 60 páginas, naves espaciais, universos medievais e alienígenas gargantuescos, às vezes acabam passando despercebidos jogos que oferecem uma experiência muito divertida e justa, só porque os desenvolvedores não conseguiram fazer a galera embarcar no trem do hype.

Como um paladino da justiça lúdica, me sinto obrigado a interceder por essas pequenas joias dos jogo modernos sempre que vejo um gamer falando mal ou destratando um jogo que nunca jogou só porque a caixa não pesa 5 kg ou porque não tem um tema popular estampado na caixa.

Não que os jogos de 5 kg não sejam bacanas, ou que eu não goste de um Guerra dos Tronos: Board Game sempre que a oportunidade surge, mas às vezes a situação pede mais por um Say Bye to The Villains ou um Dobble. E ter uma variedade na prateleira acaba recompensando muito mais, principalmente quando se tem a oportunidade de evangelizar pouco a pouco seus amigos não-gamers, começando por um Dixit, passando por um Ticket to Ride despretensioso e dando um bote estratégico colocando o Eldritch Horror na mesa quando a galera já estiver preparada pra isso. Tudo a seu tempo.

Cada jogo tem seu momento, e existe um jogo ideal para cada grupo em cada situação, ideia da qual sou um grande defensor, e seguirei dizendo isso até que os fanáticos admitam que Smash Up é divertido, sim, e que Munchkin não funciona em qualquer grupo. E é por isso precisamos falar sobre Mafia de Cuba.

Quem já passou pela experiência de um jogo de dedução social como Werewolf e The Resistance pode me ajudar a listar as inúmeras qualidades que esse gênero pode trazer para sua mesa de jogo (sendo que nem sempre eles precisam de uma mesa): o número de jogadores elevado permite encaixar vários amigos na mesma partida, a interação é incentivada e é uma ferramenta incrível para testar e constatar o cinismo das pessoas que você julga serem honestas. É incrivelmente divertido ativar o próprio cinismo, também. E mentir de cara lavada na frente das pessoas, protegido pelas regras do jogo, traz uma liberdade que só a atividade lúdica proporciona (que é linguagem babaca para “jogos são muito legais”).

Mas essa diversão exacerbada tem um custo. Quem nunca jogou The Resistance pode não compreender o poder de destruição que esse jogo traz para a sua vida. Eu já presenciei e fui alvo de tapas na cara, pessoas chorando, crises de gastrite nervosa e paranoia leve em mesas de Resistance que acabaram se estendendo um pouco demais, temporal ou psicologicamente. É notável que esse tipo de jogo exige um investimento emocional muito alto. E manter a cara de pau por várias partidas seguidas, queimando os miolos e usando todas as suas habilidades de reconhecimento de linguagem corporal para tentar ler seus amigos pode se tornar exaustivo, e você pode traumatizar o grupo a ponto de botarem fogo na caixinha vermelha do jogo para exorcizá-lo dos demônios da traição.

O problema é que jogos de dedução são, como já disse, extremamente divertidos. E se você já chegou ao ponto de exorcizar seu The Resistance ou Werewolf, vai chegar o momento em que o grupo pede por um jogo com alta interação e discussões acaloradas. É aí que entra Mafia de Cuba. Um jogo de dedução social com o nível certo de intrigas pra todo mundo se divertir e ninguém passar mal de gastrite.

As diferenças que Mafia de Cuba traz para a categoria de jogos de dedução social fazem dele um jogo leve e despretensioso, com alto fator de replay, completo com uma temática maneira que evoca a uma porção de filmes ruins, mas adoráveis dos anos 70.

A princípio, observando as regras do jogo, é possível identificar imediatamente uma diferença crucial na maneira como os jogadores podem direcionar o curso do jogo com suas próprias decisões, e isso está na escolha dos papéis. Não existe sensação mais decepcionante que esperar uma carta de Agente da Resistência em The Resistance e receber logo um Assassino, como se o universo estivesse rindo convulsivamente da sua cara. Em Mafia de Cuba, os jogadores têm a chance de escolherem o lado que querem tomar, mantendo essa informação confidencial e preparando-se para adotar as melhores estratégias. Pegue uma ficha de Capanga e seu único trabalho será falar a verdade, ou pegue uma ficha de FBI ou CIA e divirta-se mentindo descaradamente e instaurando o caos nas partidas, a escolha é sua.

Outra questão importante é o fato de a responsabilidade estar depositada nas mãos do Chefão, durante toda a partida. Este é o protagonista do jogo, e muitas vezes sua atenção só será dirigida a você se você quiser que isso aconteça. O Chefão tem, de fato, uma posição delicada no jogo, e sofre de uma pressão que só ele pode sustentar. Mas em partidas de 15 minutos, com a possibilidade de acusar a pessoa errada e seguir com a sua vida sem levar um tapa na cara de ninguém. Além disso, é muito fácil passar a caixa do jogo para o próximo Chefão e se vingar de toda a traição na partida seguinte.

Além das qualidades mecânicas que fazem de Mafia de Cuba um jogão, a qualidade das ilustrações e componentes não deixa nada a desejar. E é raro encontrar jogos que usam a própria caixa como elemento mecânico, e que incentivam os jogadores a esconderem elementos no bolso como parte da diversão. Pra isso, a caixa é reforçada e bem trabalhada, e você não vai se preocupar com suas peças se desgastarem tão cedo, visto que os elementos essenciais do jogo são divertidos diamantes transparentes e fichas de pôquer com ilustrações cafonas, mas muito adequadas. Material de qualidade também faz um jogo de qualidade.

Mafia de Cuba é o jogo ideal para grupos grandes que já esgotaram o número de partidas de The Resistance recomendado pelos psicólogos. E merece um lugar na prateleira, mesmo que seja só pelo fato de não precisar de uma mesa pra jogar. Um party game com grandes qualidades, que muitas vezes é esquecido por não ter pilotado o trem do hype no lançamento.

Encontre o seu em uma loja próxima a você ou na nossa loja virtual, e descubra as maravilhas dos jogos de dedução social ;) 
 

Sobre Gabriel Caropreso


Win 20160226 112855

Gestor de conteúdo na Galápagos, aprendiz de palhaço e campeão invicto da liga mooquense de The Resistance, que acontece tradicionalmente em sua casa há 3 anos.

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Comentários

Galapagos default user image
17 de Abril de 2017, 01:37

Apaixonei pelo jogo e já levei de cara a expansão, que alias é linda e adiciona um adesivo na caixa, facilitando a escolha de personagens. Realmente acho um pecado não ter holofotes nesse jogo.

A caixa é linda, as peças perfeitas e dá pra levar numa mochila, em viagens, acampamentos, jogar realmente em qualquer canto. Uma pérola, ou melhor, um diamente.


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